"Mano-a-Mano" - Uma exposição nas Águas Livres

ANA VELEZ ★ JOANA GOMES ★ MARIA SASSETTI ★ XANA SOUSA

Curadoria de Jorge Catarino

14 DE MARÇO a 6 DE ABRIL

Quintas e Sextas . 14h - 19h | Sábados . 14h - 20h

Nas palavras do curador a melhor expressão sobre esta exposição:

“Mano-a-mano é uma expressão que designa um combate corpo-a-corpo, em que os adversários se enfrentam usando as próprias mãos.

A História da Arte tende para analogias bélicas. A palavra escolhida para descrever o conjunto de processos através dos quais a arte se libertou de constrangimentos externos e convenções internas é um termo bélico, vanguarda. A acção da mão é subjectiva, ambígua, emocional, imperfeita, inexacta, irregular, impura. Porque compromete a autonomia e auto-suficiência do objecto artístico, a manualidade é eliminada. A arte desumaniza-se. Forma perfeita, geométrica e encerrada sobre si mesma, o quadrado torna-se emblema da Abstracção. Em 1918 Malevich pinta um quadrado branco sobre fundo branco. Mais tarde, o white cube completa o processo de auto-suficiência e auto-referencialidade da obra de arte.

A obra de arte é não apenas autónoma, como concebe ainda um espaço autónomo para se apresentar, separado de qualquer influência mundana que comprometa a sua pureza. Um

quadrado branco sobre um fundo branco num cubo branco. Porque são quatro artistas, imaginei uma quadratura, cada artista ocupando um dos quatro cantos do quadrado. À semelhança do quadrado branco e do white cube, um ringue é também um espaço quadrado (e frequentemente branco), física e simbolicamente delimitado, com regras válidas apenas no perímetro interno descrito pelo quadrado. Com uma diferença: no quadrado do ringue sujam-se as mãos.

O título da exposição joga com a ambivalência da expressão mano-a-mano, no sentido corrente de combate e na referência literal a uma acção directa da manualidade. Este aspecto introduz-nos à prática das quatro artistas. Ainda que diversos, os trabalhos de Joana Gomes, Maria Sassetti, Xana Sousa e Ana Velez confrontam-se com uma prática da pintura de campo alargado. É possível localizar nos seus trabalhos elementos do repertório formal da Abstracção, que serviu a autonomização e especificação do meio pictórico, purificando-o: grelha e monocromia, shaped canvas, repetição e progressão serial. Nesta quadratura de artistas, no entanto, a investigação acerca dos limites convencionais da pintura bem como do seu estatuto objectual faz-se através da procura deliberada de impureza.

A partir do vocabulário oficial da Abstracção, Joana Gomes, Maria Sassetti, Xana Sousa e Ana Velez desenvolvem uma prática profundamente ligada à manualidade, numa mestiçagem de processos, técnicas e materiais não convencionais ou com existência prévia, resultando numa abstracção texturada, impura, enfim, humanizada.”

Jorge André Catarino, 2019

Ana Morais